Visita à Pinacoteca com Gag;
Foi inaugurada em 4 de março de 2023 a Pina Contemporânea no Jardim da Luz onde antes um edifício abrigava a Escola Estadual Prudente de Moraes. "O projeto da expansão da Pinacoteca é assinado pelo escritório Arquitetos Associados em parceria com Silvio Oksman (estudou na FAU) e em diálogo com as equipes do museu". Tem linhas modernas muito bonitas, estrutura aparente de ferro e um teto cujas vigas de madeira tem desenhos e parece feito para abrigar as manifestações de dança, performance, audiovisuais, etc além de ser mais sustentável. Na visita tinha um espetáculo de dança, um sino do Tunga chamou a atenção do Gag, uma exposição de Cao Fei mostrando aspectos da China dos dias de hoje; alguns são conhecidos como a China produzindo muitos produtos para o mundo a preços competitivos e alguns que desconfiamos, como a exploração da mão de obra. Mas nenhum é conhecido de fato, pois a China mantém uma ditadura comunista que censura coisas não favoráveis ao regime. Com Cao Fei vemos muitas críticas a esse regime. A colaboração com a Rússia aparece em uma foto onde hoje é o estúdio da artista, um cinema abandonado com a fachada nitidamente ocidental com letreiros chineses e uma certa antropofagia. O certo é que a opinião de Cao Fei chega para nós nessa exposição. As informações sobre o lado oriental só chegam a quem tiver curiosidade para buscar, porque existem, mas não estão no nosso noticiário cotidiano, onde fatos do outro lado do mundo são guerras tipo da Ucrânia ou terremotos na China ou na Turquia. Fica para mim algumas perguntas, já que a artista mora em Beijing, é internacionalmente famosa, tem obras adquiridas pelo Guggenheim e outras importantes instituições, é professora de arte na China. Uma curiosa mistura de apoio internacional e doméstico, com duras críticas a aspectos desumanizantes do ambiente industrial chinês, mais parecendo uma democracia ocidental do que um duro e fechado regime chinês.A
Apesar de falar dela primeiro, a visita à Pina contemporânea foi a última do dia, pois na Pinacoteca tínhamos muito o que ver. Sonia foi a primeira que vimos de novo, não sem antes apreciar o belo trabalho de reforma que Paulo Mendes da Rocha imprimiu ao antigo edifício de Ramos de Azevedo e Domiziano Rossi. A passarela central e algumas aberturas formam um conjjunto de vistas que dão pontos de vista diferentes para apreciação de algumas obras. Sonia Gomes sinfonia das cores vimos na entrada, por baixo, no octagono, uma ou várias obras tecidas, quase fios, pendurados no teto. É uma reflexão e um produto do modo como o seu próprio corpo reage aos tecidos, na medida em que cria objetos cuja materialidade se liga à história de outras pessoas e cuja escala corresponde ao alcance de seus membros.
O acervo da Pinacoteca em algum momento nos levou ao Almeida Junior, e o Gag teceu um discurso sobre a formação da iconografia do imaginario paulistano, coisa que sempre me interessou visitar e revisitar. Uma das aulas que mais eu gostava era sobre a historia do Brasil vista por esse ponto de vista da arte. Esclareco que na minha formação soube mais de coisas japonesas e a historia do Brasil sempre me foi um assunto de escola e identidade zero.
Almeida Junior tem um lugar de destaque na coleção da Pinacoteca do Estado, e pelo visto a administração de Jochen Volz (ex Inhotim) apareceu para mim num óleo de uma mulher (lembro a imagem, mas não me recordo de quem ) ladeado por duas manifestações atuais, de foto de Claudia Andujar e outra que tambem nao me recordo, de um conjunto de fotos onde chama a atenção uma em que a mulher esta encaixada num buraco na parede na forma de sua silhueta. Lembra figuras religiosas em nichos para santas.
Gosto de citar Almeida Junior, Bernardelli e Benedito Calixto, acho que são heróis da paulistanidade, por criar uma memória visual daquilo que antes era inexistente. Compreendo alguns motivos de epoca, e talvez seja isso que precise ser sempre revisitado, e pela arte porque não? Lembro de um vídeo do curador Paulo Miyada (Instituto Tomie Ohtake, Auroras, etc) que mostrava o monumento da Memoria que fica no centro de São Paulo, ressaltando que ninguém sabe a memoria de que ele lembra, e é o monumento mais antigo da cidade de São Paulo. Memória é algo que tem me acompanhado, faz parte da vida de todos, e as minhas estão relacionadas algumas a essa memoria que a cidade de são paulo carrega. Visitar a Pinacoteca talvez seja uma visita a essa memoria.
Nos tesouros nacionais da arte, um conjunto de salas apresenta alguns artistas expoentes conhecidos. Leda Catunda, a obra parece uma boia de piscina feita de tecidos, Beatriz Milhazes, multicor com embalagens, chamou atenção minha por colar uma colorida sacola do Paulo Smith com listras verticais coloridas; Adriana Varejão, uma coluna de azulejos pintados de verde amarelo deixando à mostra um interior feito de carne. Claro, havia mais mas minha memoria não acessa, pois quero falar ainda da Marta Minujín e da retratistica da coleção Nemirovsky, alem de tecer comentários sobre o que Cao Fei me disse.
Vi um conjunto de fotos de indígenas brasileiros de Claudia Andujar em alguma sala. Não tenho imagem para mostrar, gostaria que minha memoria projetasse digitalmente isso hehehe. Enlaço meu pensamento com a Pinacoteca mostrando quadros de uma etnia indigena no saguao principal, aspectos da fantasia dos indigenas paulistanos de Almeida Junior na saida dos barcos da bandeiras. um quadro de Denilson Baniwa ao lado de uma Tarsila que confundi com o Abaporu, mas o título dizia Antropofagia. Alguma coisa na imagem de Andujar com fotos de indigenas olhando aeronaves do exercito ou aeronautica brasileira. Agora me fez lembrar que no traje de Dom Pedro II um manto era feito com penas de passaros ao invés de pele de algum animal. Pensei no peso dos símbolos, pensados e escolhidos para significar algo a quem os vê.
Aí vem a Marta Minujín, que Gag já conhecia de Buenos Aires no Malba ha 15 anos atras (2008) e que eu nunca ouvira falar antes. Impressionou entre tantas obras, as centradas em monumentos do mundo, e as esculturas moles multicoloridas que me lembram a Leda Catunda. Ainda que não seja importante, vale lembrar que quem bebeu na fonte de quem as vezes vale uma discussao de origem, aí podemos ir para Sonia Gomes tecendo fios para amarrar um roteiro de esculturas moles na Pinacoteca.
Uma coisa que o Gag chamou minha atenção foi a carta da Marta pedindo patrocínio ao MacDonald´s e a carta do MacDonald´s recusando delicadamente o pedido, em 1979. Gostei de ver as ideias e as obras com os monumentos saindo da posição vertical para a posição horizontal. Pensando agora, podia ser uma destruição do monumento mas nao, era um deslocamento de posições, que seria uma alteração do sentido do monumento. Muitas leituras podem acontecer para mim, desde um manifesto feminista como os tempos de hoje, como a discussão do sentido do monumento como Richard Serra fez em Nova Iorque, colocando uma estrutura de ferro como um muro no meio de uma praça aberta, cortando o caminho das pessoas do ponto A ao B, sendo tal escultura removida da praça a pedidos da população. talvez aí tenha havido alguma satisfação do artista em ver cumprido algum objetivo de incomodar,
Visualmente é muito satisfatório para mim as obras, cuja apresentação para exposição conta uma estoria. Esses dias estou pensando nos retratos, e a coleção Nemirovsky dedicou uma parte aos retratos, e pudemos ver auto retratos e retratos. Gostei da figura de Guignard, não soube identificar Castagnetto que com seu cavanhaque dominava a cena numa posição central. Confundi Portinari com Di Cavalcanti, coisa que faço com algumas obras. Falando em confusão, um Helio Oiticica tinha um nome mas a obra nao parecia dele, e nao era, a moça que me explicou que o Helio escrito estava pendurado no teto, e aí eu vi o Helio, e era claro para mim a questão das cores e o aspecto construtivo. Mas a obra que eu confundi tambem era boa, e eu nao lembro de quem era,
Tem um caixote do colorido de Sergio Sister, colega do Marco Gianotti, e uma pintura do Rodrigo Andrade (do Grupo da casa 7, Nuno Ramos fazia parte deles) que só vi em foto, mostrando quatro pinturas monocromáticas, duas em óleo espesso, amarelo e vermelho que desde que vi, gostei muito.
Voltando, em algum lugar tinha o porco do Nelson Leirner (tio da Jac Leirner, por sinal não vi nenhuma obra dela na Pina, talvez o que? Devia ter, é uma artista importante, paulista afinal; outra ausência foi a Sandra Cinto - será que a Pina não tem?) junto a um quadro do Almeida Junior. Eu não gosto do porco, apesar de saber que é de 1960, anos difíceis no Brasil (Brasilia foi inaugurada em 1960, nasci em 1962). A obra de Almeida Junior talvez fosse uma musa da pintura, uma mulher exuberante, com um cabelo esvoaçante, um fundo talvez de águas e nuvens, e na cabeça uma paleta de pintura, numa pintura muito colorida, diferente do Caipira picando fumo, onde tons pasteis predominam. Um quadro de Almeida Junior, os dois Caipiras caçando no Mato é muito escuro, mas talvez fosse a primeira vez que vi esse quadro ao vivo.
Uma obra me chamou a atenção por me lembrar outra artista, de Recife, mas eu estava enganado, pois a legenda disse que era da Debora Bolsoni (que fiquei um dia sabendo que era casada com meu professor Mario Ramiro), uma artista que algumas obras me agradaram, como a lombada de paçoca, e a torre de cadeiras lembrando a coluna infinita de Brancusi, um ícone da escultura. Esse tipo de artista que uma obra se liga a outra por um discurso e não por uma forma, suscita em mim alguma admiração, como Rivane Neuenschwander e Vik Muniz. Talvez muitos artistas sejam assim, mas por eu colocar meu campo de expressão na pintura admiro essa diversidade formal.
Eu gosto da Pinacoteca, parte da minha formação e apreciação acontece e aconteceu lá. A entrada grátis aos sábados é o que mais me atrai, e tem um dia que o horário de visitação é estendido, queria aproveitar mais isso, achava que exposições deviam ter horarios noturnos como cinemas - só achava, mas considerando logísticas operacionais, talvez seja só uma boa ideia sem condições de implementar, e o pior, talvez, nem tivesse publico suficiente para valer o esforço. Cinema, teatro e tv suprem essa lacuna como opções de lazer. Algumas administrações deixaram uma marca que me agradou, e fui aluno do Tadeu Chiarelli, que lhe dava muita importância, e algumas aulas foram feitas lá e na Estação Pinacoteca.
Uma vez o Tadeu em aula comentou que não havia um catálogo sistematizado dos artistas brasileiros, e eu achava que era possível fazer isso, e o Tadeu, do alto de anos de Historia, só me desejou sorte na empreitada. Hoje em dia vejo mais coisas, e acho que se um dia tal catálogo existir, a bem dos pesquisadores, vai ser bom. As iniciativas nesse sentido existem, não conhecidas por mim, mas estão em andamento.
Como fomos à Bienal algum tempo atrás, acontecem conexoes desejáveis de leitura, como a presença da obra de Sonia Gomes e Rosana Paulino, Denilson Baniwa e indigenas brasileiros. Dizer indigena brasileiro me incomoda, talvez tenha hoje em dia um termo melhor para generalizar yanomamis, bororos e tupis. Falando nisso, Carmela Gross apresenta a obra tupi com plaquinhas com vários nomes tupis presentes no cotidiano. Fiquei mais fascinado pela imagem das placas, esmaltadas em azul como as antigas placas de rua de São Paulo e alguma brancas com letras vermelhas, que nao tenho nenhum nome para falar, talvez mandioca, alguma ruas do Broklin como lembrou Gag, porque falei Moema, uma escultura do conto que junto das placas da Carmela, esposa do meu professor Luiz Martins, o Luizito, amigos da Dora, que orientou minha tese.
Uma parte falei da visita mas aproveitei para fazer alguma conexões com minha vida acadêmica. Parte é fantasia desse mundo, sistema da arte como entendi o Tadeu falando do assunto. Uma lista parcial inclui o artista e todos os pretendentes a isso, os professores e todos os envolvidos com a escola, as instituições de pesquisa e publicação do assunto, as galerias e museus e instituições de valoração do valor, como dizia Luizito, as bibliotecas servindo a todos, e as lojinhas de lembranças; colecionadores e jornalistas das midias interessadas. Acho que o sistema inteiro está em constante transformação, as vezes penso em entender tudo, mas paro de pensar isso porque nao vale a pena, é melhor trabalhar nas partes que estão ao meu alcance, e de vez em quando dar tratos à bola no que me interessa, que diante desse quadro das coisas que fui atrás de saber, sobraram listas, rostos e situações. São as coisas que estão ao meu alcance.
Quando fiz o rosto do Gag à lapis num caderninho, era necessario um descompromisso para acontecer. Quando resolvi "passar a limpo" doze anos depois e resolver dar um aspecto de acabamento, foi para deixar concluido como eu queria. E foi fazendo isso que percebi que o fundo sempre me incomodara nos retratos; e foi assim que li a obra de Bolsoni, quadros com as molduras e um fundo, sem um assunto a mais, que seria a figura ali como principal. Quando Bryce fez quadros abstratos absolutamente lisos colocados no Guggenheim de Nova Yorque sem molduras havia ali um manifesto pela, na falta de termo melhor, abstração. Em Debora Bolsoni, ao colocar molduras, há um que de abstrato nisso, mas acho que o discurso seria outro ou paralelo. Tratam ambas de boas estorias e com semelhanças, mas o que querem salientar tem diferenças.
O retrato surgiu para mim querer fazer só de conhecidos em alguns momentos, mas nunca achei nem que fazia bem, nem que dissesse alguma coisa com isso. Mais um exercício classico de desenho, sem nenhum valor a não ser a vontade de fazer tal desenho. Para mim, qualquer desenho é bonito em tese, mas quando está feito, muitos, mesmo meus, me dão desgosto, porque são ruins. Teve ou tem uma esperança de melhorar aquele desenho ruim, mas tem alguns que é melhor esquecer (e mesmo assim com dó de talvez um dia ter uma solução para isso). O Gag me parece mais realista com isso, pois sabe que tem muitas estorias para contar nos audiovisuais, e a realidade limita, nao dá para realizar todas as ideias, e mesmo se desse, muitas nao valem a pena, outras nem tem público, e outras, o pior de tudo, eu não sei resolver o conjunto.
O problema do retrato se tem a figura, tem um fundo, e resolvi que o fundo é esse texto com nomes de artistas, que é um universo que faz sentido para mim. A figura do Gag também faz sentido para mim. Como o que gostei é um desenho, o desdobramento para ser uma obra, é primeiro eu considerá-la como tal, coisa que já fiz ao gostar. Quando fiz uma pintura usando a mesma matriz, fiz um desenho de uma foto de uma pintura do Picasso, jovem. Teve horas que gostei, quando estava começando e era um esboço a lapis. Quando pensei em cores, fiquei sem saber o que fazer alem do preto e do roxo lilás que fiz no esboco. Mas maior, 40x30 cm pareceu grande perto do desenho que tinha 15x10 cm. Fiz a passagem para a tinta com aquarela, e a aquarela, que é quase indelével no papel, na tela desmancha porque não é absorvida. O espaço da tela me pareceu muito - horror vacui do seculo 19, então fui preenchendo algumas lacunas com retratos da vida do Picasso, obras que gostei, e uns textos com detalhes da vida dele, que nunca nem dei importância, mas escrevi assim mesmo. Fiquei surpreso com a data de nascimento, 1831 - seculo 19! uau, que velho - e com a data da morte - 1973 ! uau, eu ainda estava vivo e tinha 11 anos!
Esses dados ativaram algumas memorias confusas que seguem, como um parenteses, um discurso paralelo mas que sempre estão presentes.
Pablo Picasso, um velho conhecido, criticado, comentado e estudado e etc, no entanto, era só uma miragem, um ícone. O que eu estava vendo ? O sucesso, a grana, as fofocas, a Paloma, os comentários da revista Manchete, Cruzeiro. Pollock foi banalizado pela revista Life, e tornado mundialmente famoso - action painting é um clichê, como o desenho de Piet Mondrian foi relido pelo marketing do grupo que controla a L'Oreal - circula uma informação que ele e outros abstratos seriam financiados por dinheiro da CIA para uma arte americana se formar e se firmar como hoje vemos um cenario artistico recheado de históricos americanos como Warhol, Howard, Sol Lewitt, Dan Flavin, Jasper Johns etc contrapostos a um universo europeu ocidental como Beuys, YBA, Louise Borgeois, Yves Klein, Paul Hamilton etc.) como uma estrela de cinema ou televisão, uma ,arte que fazia sucesso e muitos copiavam, muitos quando queriam iconizar uma imagem maluca usavam um retrato cubista ou uma imagem do Pollock. Via isso acontecendo nas mídias, e conheci só uma pessoa que quando falou de Picasso, foi com reverencia e respeito, dizendo que entre as invenções que dava valor, foi a Pintura e colagem que ele tornou célebre;para mim, quando se fala Picasso, vem a Guernica, as meninas de Velazquez, um grande desenhista, um incansável pesquisador, com ceramica, gravura e escultura. Mais um exemplo de sucesso que um pintor e tudo isso. E nem com o discurso do professor Marco Giannotti dei valor para a pintura e colagem. Primeiro que nunca gostei de colagem - sujeira, muito barulho por nada como dizia Shakespeare, porque no final, nunca gostei do resultado - uma colagem. Julgo agora que sempre gostei mais da linguagem dos quadrinhos em preto e branco. E as coloridas que gostava, da Monica e Cebolinha, e Tio Patinhas, Mickey e Pateta, coisas da infância, superherois tipo Superman pb, supergirl pb, Achava o universo Marvel bem tosco e desinteressante, mas assisitia, (Thor, Hulk e Homem de Ferro, gostava da voz do narrador e hoje gosto dos efeitos toscos e repetições antigos, acho que porque lembro disso - não é gostar por apreciar, mas por ter feito parte da minha vida e agora faz parte da minha memória). Esse discursinho ouvi e repeti como uma antena, e acredito que sempre procurei o sucesso do qual eu fui e sou público. Em algum momento na escola de arte soou um alarme do Walter Benjamin, um autor como produtor, mas apesar de ter informações sobre o assunto, não tinha o elemento decisivo, que é acreditar que isso é que é, como a Coca-cola do Cildo Meireles. Passei toda minha vida assistindo fatos ocorrerem mas sempre com dúvidas, tanto de um lado como de todos os outros e as derivações. Não acreditar em nada também leva ao que consigo pensar hoje, graças a Wittgenstein e Giorgio Agamben, que sem escolher qualquer lado, a vida também não em significado, pois este é princípio do significado, passa a existir a partir de uma escolha. Escolher o sucesso é vazio, e para escolher o conteúdo é preciso eleger um lado. Esse lado não precisa ser fixo (e eu gostaria que fosse, ficaria mais fácil escolher), vai mudando conforme a maré mas tem uma luz no fim do túnel a perseguir. Precisei dar essa volta toda por dúvidas, e agora consigo ver algum conteúdo, que é pífio na minha opinião mas é um conteúdo hehehe. Artistas como Marta Minujín me deixam mais claro isso, porque os temas são mais claros. Todos os artistas de algum modo fazem isso, e agora estou entendendo essa chave, o que não me garante aquele sucesso que desejei, e sim um ponto de inflexão, com dizia Regina Meyer na FAU.
Acabado esse parenteses, o retrato na mesa vai continuar, e as listras estão adquirindo algum sentido, estão ficando cada vez mais belas aos meus olhos. Tem um contraste que gosto, o retrato numa superfície e as minhas listras em outro. Lado a lado, a mim adquirem uma força boa, parecem combinar de alguma forma, que não sei explicar, mas existe.
Esse formato da tela de 40x30 cm parece bom, mas ainda parece agora, grande demais. Não para as listras, mas para os retratos. Vi os tamanhos no livro da vida do Picasso, coisa de 70 de altura. Na Pinacoteca, tinha de vários tamanhos, em geral por volta dos 40x30 cm. Algumas obras atribuídas ao Vermeer também são mais ou menos desse tamanho. No nosso tempo digitalizado, o tamanho físico pouco importa, mas as minhas condições de produção importam.
Uma tela precisa fotografar para digitalizar. Papel é mais fácil mas precisa de moldura depois, principalmente para proteger das intempéries, fungos e outras coisas naturais. Nada é eterno, mas há uma expectativa de eternidade para a obra de arte. Eu como produtor, ouço dizer que a Santa Ceia do Leonardo já precisou de restauro antes de acabar, as pinturas do Pollock foram feitas sem fundo e a tinta industrial ataca o tecido, e os museus precisam restaurar o tempo todo.
O público não precisa saber disso, só os colecionadores ficam sabendo. Eu comecei a tomar conhecimento disso recentemente, e a culpa apareceu, pois fiz, dei e enquadrei muita coisa sem saber dessas fragilidades inerentes aos materiais. Por outro lado, um artista não deve essas coisas, senão não produz amarrado por normas feita para produtos industriais. Acho que essa compreeensão nao me ajuda a vender um produto que nao tenho como garantir, que é o original. A foto, a cópia, essa dá. Mas isso vai contra meu apreço pelo original. O publico quer esse original? Acho que se tem alguns tipos de colecionadores, deve ter uns que só querem gravuras, e poucos se dão ao luxo de investir em originais.
Finalmente, o tipo de arte que estou fazendo é o usualmente conhecido, o desenho e a pintura. Sobre papel, sobre tela. Não consigo nem quero mais descobertas no meu processo de produção, desisti das idéias novas, quero investir na reformulação dessas ideias, as apropriações e revisões, aperfeiçoamento soa sem sentido, atualizar é mais real porque não implica que o novo é melhor ou pior que o antigo.
As denominações são modos de facilitar o transito de comunicação, sabendo que falamos do mesmo assunto. Antes me confundia com denominações como Arquitetura Moderna, Arte contemporânea e outros nomes. Hoje em dia acho que estou fazendo as pazes com os termos para ir mais fundo nos entendimentos dos assuntos a que se referem. Uma parte faz sentido pelo tempo, outra parte é uma preocupação universal, de qualquer tempo.
Celular é de hoje, o que se conversa nele pode ser vida, reprodução ou morte, e os recheios que são inerentes, o modo de falar, de se portar, etc. Tilda Swinton faz o papel de uma narratologista interessada nas estorias de mitos e lendas do mundo inteiro, e um discurso do filme diz que antes da ciência, os mitos ocuparam lugares centrais para dar respostas a coisas inexplicáveis como o barulho do trovão. Acho dar uma razão, seja ciência ou mito, é importante. Para alguns, criar essa explicação, significa apostar em alguma coisa. Acho que arte faz isso, é o ponto de vista de quem conta a estoria, isso é importante.
Assim, chegamos a Cao Fei, artista chinesa preocupada com o ambiente industrial chinês, e outros desenvolvimentos digitais. Uma parte substitui coisas supérfluas * como mão de obra, uma fabrica digitalizada onde apenas dois funcionários tomam conta de uma produção que antes usavam milhares de pessoas. Outra parte discute o tempo livre no ambiente digital como second life e metadata, um jeito de viver a vida em um mundo virtual com regras feitas por você. Um depoimento que vi, uma pessoa diz que nesse mundo diz que você é livre, mas quem manda no software é uma multinacional sem rosto, então não há liberdade, há uma ilusao de liberdade. Por outro lado, liberdade é um conceito ligado a um outro, o do aprisionamento. Essa liberdade total em si não existe, e sim uma noção do que seria essa liberdade. Não há que eu conheça, em vida, a liberdade total - só a impensável morte daria alguma resposta para quem vai, mas para quem fica nada muda. Há por outro lado, uma condição e uma luta para essa condição melhorar, para algum lado, de algum jeito.
Escrever não pinta, mas me esclarece.
observação - A partir de um certo momento, copiei nomes e datas que me interessaram e deixei com a formatação de onde copiei. Um ato de preguiça e veracidade numa época de fake news.
Por que gosto de saber datas e nomes, compõem listas, estatísticas, coisas que tem forma. A forma, a imagem, sempre carrega o conteúdo, as intenções do autor, que é validado por um sistema que não atinjo e quero atingir.
Gosto dos conteúdos, mas não consigo nem enxergar nem imprimir isso bem elaborado no meu trabalho. Só gosto de trabalhos meus que recebem aplausos, e algumas vezes senti que fiz algo bom nesse sentido, e alguns aplausos são bem recebidos por mim. Mas até bem pouco tempo atrás, não conseguia enxergar valor de fato nos meus trabalhos, só formas bonitas sem muito além disso e fiquei insatisfeito e deprimido com isso. No entanto, há algo em alguns desenhos, que me fazem acreditar que há algo neles que repercute bem: eu gosto deles.
Agora, tem coisas que vou vencer - a coragem de uma sinceridade ao produzir o que quero, sem o filtro de algo que vai dar certo por si só. Não conheço ou não tenho confiança ainda para isso, e a unica maneira de construir isso é insistir.
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