sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Definir o que é arte não é possível, nem faz sentido. (Ad Heinhardt Buffalo, 1913 - NY 1927) 

Na Bienal de 2023, Coreografias do impossível, repercutiram as pinturas "Mangue" de Rosana Paulino. 

Na internet o link https://35.bienal.org.br/participante/rosana-paulino/ tem uma foto. 

São quatro trípticos, cada um representando uma deusa, em cores vivas com um amarelo dominante, e as outras cores a destacar os temas das deusas. Apesar da técnica da pintura chamar a atenção, o tema é mais forte para mim, me traz referências múltiplas ao Brasil no mangue e nos elementos da natureza. A mistura étnica me faz pensar na minha própria cultura, o quanto eu a conheço e desconheço. 

Ao ver deusas nas pinturas, lembrei que sei mais das deusas gregas e santas católicas que das japonesas! Pesquisei e achei Izanami, Amaterasu, Ame-no-Uzume, Inari, Kannon. Outro dia vi o musical Elis, e tive a mesma sensação, pois tenho mais contato com outras músicas e, apesar de ter ouvido todas as música interpretadas pela Elis Regina, não posso dizer que vem para mim como outras canções. 

Num mundo com tanta informação, as pinturas da Rosana me lembram que lacunas culturais são também escolhas. O mangue está a ser defendido como ecossistema importante, e essas pinturas modificaram minha visão desse lugar. Para mim era um lugar triste, podre e cheio de caranguejos, meio pântano, úmido e pouco agradável. Continua assim, mas agora tem um lugar melhor, das trocas naturais, da riqueza da vida ali existente. Para um urbanóide como eu, não é para visitar mas para defender.

Me encontrei lá na Bienal com o Sergio Gag, que chamou a atenção para a montagem da mostra, ao interferir na obra do Niemeyer dando outra dimensão ao espaço da rampa, um ícone do modernismo. Também me apresentou Denílson Baniwa em um quadro logo na entrada. E chamou a atenção para a instalação na entrada do artista filipino Kidlat Tahimik,  traduzido livremente como Nos matando suavemente… (com suas músicas… histórias, alfabetos, rezas, mitos… super-heróis…), inspirada na música de Charles Fox e Norman Gimbel. Pareceu-me óbvio apontar para o colonialismo real e cultural a que estamos sujeitos, e pelo visto não estamos sozinhos no mundo, as Filipinas estão do outro lado do mundo e o Fernão de Magalhães morreu por lá, em Cebu. Tem um filme sobre isso com o Rodrigo Santoro. As Filipinas foram da Espanha, do Japão e dos Estados Unidos e faz sentido lutarem contra esse colonialismo cultural.

Não compreendi muito bem seu interesse em algumas estruturas penduradas. Fiz uma leitura mas não fui além disso. Talvez bordados que, de longe, parecem coisas orgânicas como raízes, folhas e frutos remetam às coleções em voga na história dos gabinetes de curiosidades, relíquias do nosso mundo selvagem para as culturas europeias que faziam o Brasil dos Viajantes que gosto muito, como Franz Post, Albert Eckout, Martius e Thomas Ender.


Fotos de Sergio Gag, Bienal de 2023, Coreografias do impossível.


  



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